quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Realidades do setor da construção civil no Estado do Pará e em Belém [1].



José Marinho, militante do PSTU

Passado o carnaval, período de celebração e comemoração dos trabalhadores brasileiros, o jornal burguês “O Liberal” provoca os operários e operárias da construção civil paraense com uma matéria mentirosa e falaciosa sobre a geração de emprego do setor no Estado. De acordo com o jornal, o setor gerou mais de 12 mil novos postos de trabalhos, representando um crescimento de 15,71% nos empregos formais do setor. Os dados trabalhados acima foram retirados do Departamento Intersindical de estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), indicando ainda que o saldo alcançado no Pará é o maior de toda a Região Norte.

A verdade sobre os fatos:

De maneira até ingênua, o mesmo periódico informa que em 2012 o setor admitiu 83.914 trabalhadores e desempregou 71.669 mães e pais de família. Um observador mais sensato pode se questionar porque o setor emprega e desemprega tanto num período tão curto, afinal, não seria mais fácil manter os trabalhadores empregados e contratar novos trabalhadores? A resposta pode variar de acordo com o interessado na pergunta. Para os trabalhadores isso seria o ideal, já que, conforme o tempo de trabalho dedicado à empresa, maior seria sua remuneração e indenização no caso de seu desligamento – sem mencionar os outros direitos trabalhistas. Contudo, isso não interessa à patronal.
A burguesia do setor, para aliciar e superexplorar os trabalhadores, utiliza-se de dois métodos muito eficazes: a rotatividade e a subcontratação. Esta última nada mais é do que a informalidade no setor.  O ministério do trabalho estima que de cada 10 trabalhadores no país, 6 não possuem carteira assinada. Na construção civil o número passa de 7 a cada 10 trabalhadores. Assim, ao se considerar os dados nacionais, é possível estimar que em 1 de janeiro de 2012 existissem na cidade de Belém 54 mil operários sem direito trabalhista algum. Ou seja, 68% dos trabalhadores que constroem a riqueza da grande indústria da construção civil na cidade, moem diariamente seus ossos e músculos sem direito a férias, FGTS, aposentadoria, 13º salário e as demais conquistas trabalhistas. Dessa maneira, a patronal corta os custos à metade com encargos sociais, equivalentes ao dobro do custo com a mão de obra. Uma “economia” de 50% pagas com o suor e a superexploração dos operários do setor, haja vista que um trabalhador formal custa para a empresa 20% a mais que o informal. A rotatividade, que no setor gira na marca de 75% ao ano no Estado, aumenta a precarização e a exploração, visto que o trabalhador demitido receberá menos ao ser contratado para a mesma função num novo emprego. Dados do DIEESE indicam uma diferença de 22% do salário de um operário que passa um ano numa empresa para o operário que fica mais tempo. O instituto conclui que “a rotatividade na construção civil é funcional para o empregador na medida em que segura o aumento de renda dos trabalhadores, que poderia ser trazido por uma relação de trabalho formalizada”.
            Estes dados iniciais já indicam a verdade sobre o aumento de emprego do setor no Pará. Não foram necessariamente os postos de trabalho que aumentaram e sim a exploração e os lucros dos grandes empresários do setor com manobras como a informalidade e a rotatividade. Para ficar ainda pior, não dá para esquecer a condição da operária do setor. Uma parcela significava da categoria que não tem direito a progredir funcionalmente de acordo com a qualificação que possuem – sem mencionar o assédio moral a sexual a que estão submetidas todos os dias. É a velha questão da opressão de gênero maltratando o corpo e a mente da parcela mais oprimida e explorada da construção civil. A mulher entra servente e morre servente no canteiro de obras, recebendo salários mais baixos e executando várias vezes o mesmo trabalho que um operário qualificado – oficial – submete-se ao assédio de patrões, engenheiros e dos próprios colegas para garantir um salário rebaixado que constantemente é pago com atraso ou em parcelas que não suprem sua necessidade e de sua família.

Lembrando 2012...


Diante de toda essa exploração homens e mulheres operários da construção civil da região metropolitana de Belém cruzaram os braços durante 17 dias em revindicação ao aumento de salário e das condições de trabalho. Uma forte luta contra a patronal e a justiça burguesa que bloqueou as contas do sindicato da construção civil de Belém numa tentativa de estrangular o movimento e vencê-lo com a fome e o cansaço da categoria. Na pauta constava reajuste de 16% do salário, vale gás, vale alimentação, qualificação e classificação para as operárias, além de creche e licença maternidade de seis meses; delegado sindical de base com estabilidade no emprego, manutenção de vitórias como o pagamento do salário para os trabalhadores acidentados até que seja paga a primeira parcela do benefício do INSS e a permanência da entrada do sindicato nos canteiros de obras.
Com um movimento organizado e ordeiro, dirigido pelo sindicato da construção civil de Belém – filiado a CSP-Conlutas – e seus aliados da região metropolitana de Belém, foi possível vencer a patronal e retirar um reajuste que variou de 8,5% a 9,23%, além da manutenção dos direitos adquiridos ao longo de anos de lutas do setor, bem como a primeira vitória específica na pauta das operárias: classificação e qualificação. Um reajuste acima da inflação de 5% realizado pelo governo Dilma. Contudo esse reajuste de longe se compara com a arrecadação e a riqueza gerada pelos trabalhadores.

Uma triste realidade! 

Uma pesquisa realizada pelo IBGE no período de 2002 a 2010 aponta uma triste realidade. O total de trabalhadores com carteira assinada foi de 36%, pouco mais de um terço da categoria. O gasto com pessoal girou em 25% do faturamento das empresas, caindo para 5% nas 7 maiores empresas do setor. O rendimento médio anual do trabalhador do setor caiu de 3,8 salários mínimos em 2002 para 2,4 em 2010. Em números mais transparentes, durante o ano de 2010 o trabalhador da construção civil do Pará custou para a empresa por ano R$17.579,08 ou R$1.552,23 por mês, ou R$7,68 por hora trabalhada, considerando uma jornada semanal de 44 horas, entretanto, ele gerou de ganhos para a empresa R$63.944,34 anuais, R$4.922,64 mensais ou R$27,96 por hora trabalhada. De posse dos dados é possível concluir que o trabalhador da construção civil paraense paga seu salário em 7 dias de trabalho, sendo lesado em 18 dias de sua força de trabalho para gerar lucro para as grandes empresas e empreiteiras do setor. 
Essa é a triste realidade das mulheres e homens operários da construção de Belém e do Estado do Pará. Bem diferente da folgada situação do patrão que só no ano de 2010 ficou com 45% da riqueza gerada pelos trabalhadores, dando para os banqueiros e para o governo uma fatia de 20% desse bolo a cada, restando apenas 15% a serem distribuídos entre milhares de homens e mulheres anônimas que acordam as 4h30 da manhã, trabalham de 7h as 17h e ainda tem que dar conta, em sua maioria, de seu lar e de sua família que dispõe dessa única renda para sobreviver e ainda são obrigados a engolir tamanha falácia gerada pelas mídias burguesas como “O Liberal”, pagas pelos patrões com o suor e a agonia desses trabalhadores[2].




[1] Matéria dedicada à memória do camarada e operário da construção civil de Belém, Adilson Duarte, falecido fatalmente na ilha de Cotijuba dia 06 de janeiro de 2013, enquanto confraternizava com a companheira e os amigos depois de um ano de trabalho e intensas atividades militantes.
[2] Dados retirados do trabalho “A exploração do operário da construção civil de Belém”, realizado por Nazareno Godeiro para o Instituto Latino Americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE).

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

1ª Plenária do mandato do vereador operário e socialista Cleber Rabelo


Base aliada do Prefeito Zenaldo Coutinho veta a inciativa de realizar audiência pública para discutir a situação da saúde pública em Belém.

O Vereador Cleber Rabelo (PSTU) denunciou hoje(06/02), na Câmara, o caos nos postos de saúde da do bairro da Pratinha, onde moradores do bairro, que ainda não foram cadastrados, não podem ser atendidos por falta de médicos, remédios e de estrutura. Apenas pacientes cadastrados no programa Hiperdia estão sendo atendidos. Segundo os moradores somente se algum paciente do programa desistir do atendimento outra pessoa poderá ser atendida. Além disso, odontólogos, contratados pela prefeitura, não estariam atendendo a população por falta completa de material para procedimentos.
Na sessão de hoje foi discutido a iniciativa para realização de uma audiência publica na câmara municipal, para debater com a população e com os trabalhadores da saúde sobre o caos em que se encontram os prontos socorros e as unidades básicas de Belém.
Porém a base aliada do governo do PSDB conseguiu aprovar o veto ao requerimento que solicitava a audiência, alegando que ainda era muito cedo para se discutir, haja vista que há apenas um mês de gestão.
O vereador repudiou a atitude dos parlamentares que votaram contra e criticou que médicos da prefeitura de Belém, os também vereadores, Dr. Wanderlan Quaresma (PMDB), Dr. Abel Loureiro (DEM), Dr. Elenilson Santos (PTdoB) tenham votado contra e outros abdicado de seu direito de voto na sessão. No total foram 7 vereadores que estavam presente mas deixaram de votar, 10 vereadores a favor da realização da audiência e 15 vereadores contra a realização e 3 estiveram ausentes.
Veja a lista completa da votação.

Vereadores que votaram a favor da audiência: AMAURY (PT), CLEBER RABELO (PSTU), FERNANDO CARNEIRO (PSOL), FRANCISCO ALMEIDA (Dr. Chiquinho) (PSOL), IRAM MORAES (PT), MARINOR BRITO (PSOL), MEG BARROS (PSOL), MIGUEL RODRIGUES (PRB), SANDRA BATISTA (PCdoB), VANDICK LIMA (PP).

Vereadores que votaram contra a audiência: ADUARDA LOUCHARD (PPS), ANTÔNIO ROCHA (PMDB), Dr. ELENILSON SANTOS (PTdoB), GLEISSON SILVA (PSB), JOSÉ MARIA DINELY (PSC), JOSIAS HIGINO (PSB), MAURO FREITAS (PSDC), NEHEMIAS VALETIM (PSDB), ORLANDO REIS (PSD), PAULO BENGTSON (PSDB), PAULO QUEIROZ (PSDB), PIO NETO (PTB), PROFº ELIAS (PPS), THIAGO ARAÚJO (PPS), VICTOR CUNHA (PTB).

Vereadores que estavam presente no planário mas abdicaram do direito de voto: Dr. ABEL LOUREIRO (DEM),
IGOR NORMANDO (PHS), JOSÉ SCAFF FILHO (PMDB), MOA MORAES (PCdoB), RAUL BATISTA (PRB), RILDO PESSOA (PDT), Dr. WANDERLAN QUARESMA (PMDB).

Vereadores ausentes: IVANISE GASPARIM (PT), LUIZ PEREIRA (PR), ZECA PIRÃO (PMDB).



domingo, 10 de fevereiro de 2013

Cleber participa de Ato em homenagem a militantes da antiga Convergência Socialista enquadrados na Lei de Segurança Nacional


    O ato em homenagem aos oito militantes da Convergência Socialista (CS) enquadrados, há 30 anos, na Lei de Segurança Nacional reuniu diversos ativistas e líderes sindicais na Câmara de Vereadores de Belém, na noite da última segunda-feira (04/02). Convocado pelo vereador Fernando Carneiro, o ato foi descrito pelos presentes como um momento único de reencontro, mas também como uma forma de rever o passado, corrigir o presente e lutar por um futuro digno.
A mesa de abertura, composta pelos vereadores Fernando Carneiro (PSOL) e Cleber Rabelo (PSTU), pelos militantes da ex-Convergência Socialista Bernadete Menezes e Vinicius Teles, Dion Monteiro (Comitê Xingu Vivo), Paulo Fonteles (Comitê Paraense pela Verdade, Memória, justiça), professora Edilza Fontes (PCdoB), Marco Apolo (SDDH), iniciou ao som de Andréa Pinheiro, com as músicas Roda Viva e Cálice.

A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar

   Durante as falas, foram lembrados momentos de agonia da Ditadura Militar, a luta dos estudantes secundaristas de Belém pelo direito à meia passagem e, obviamente, a dura repressão da polícia. Nesse contexto, encontrava-se um grupo de estudantes secundaristas que, em 1981, aderem à CS. Em 82,
que teve um rápido crescimento de influência durante as eleições de 82, com sua candidata Bernadete Menezes sendo a segunda candidata mais votada do PT em Belém. fato este que chamou a atenção do regime. fevereiro de 1983, a sede da CS/ Alicerce, na Nove de Janeiro, foi invadida pela Polícia Federal.

A gente toma a iniciativa, Viola na rua a cantar

   Para Vinicius Teles, a CS era composta por um pequeno grupo de enormes militantes, que não mediam esforços pra acabar com a falta de liberdade. E que não sabiam, de fato, no que estavam metidos. “Fomos entender o que era esse processo ao longo da nossa existência. De 83 a 90, fui demitido em diversos lugares e onde quer que eu fosse era conhecido como ‘Tinta Fresca: encostou, sujou’. Ainda assim, perseveramos e continuamos acreditando em outro modelo de sociedade”, afirmou.
  Mas se o instrumento para perseguir ativistas sindicais e estudantis, jornalistas e lideranças que combateram o regime militar foi a Lei de Segurança Nacional, hoje os mecanismos são outros. Cleber Rabelo afirmou que mesmo depois da ditadura, organizações continuaram sendo monitoradas pela inteligência da polícia, inclusive o PSTU, em 90 (os congressos, os encontros internacionais...). Isso porque, segundo o vereador, ainda vivemos em uma didatura. “A ditadura não acabou. Vivemos numa falsa democracia, a democracia dos ricos. Hoje, criminalizam os movimetos sociais, grupos de extermínio são legalizados, dirigentes sindicais são presos... CIA continua matando pessoas, órgãos internacionais legitimam isso tudo!”
   Por isso, para ele, resgatar a luta travada pelo Movimento estudantil na luta por uma nova sociedade é fundamental. Enquanto muita gente tomou rumos diferentes, principalmente depois da queda do muro de Berlim, enquanto muitos perderam o viés da luta... motivo de orgulho: nasceu em 72, no período da ditadura, mas não militava na época. Ouvir os depoimentos... porque nós continuamos o projeto de vocês (daqueles meninos e meninas) de construção de um mundo novo. Nós somos a sequencia disso.
   O ativista do Comitê Xingu Vivo Para Sempre, Dion Monteiro, também acredita na importância de se ouvir tais depoimentos, mas mais do que isso, divulgá-los e constantemente denunciá-los. “Se nós não resgatarmos o que aconteceu no passado e não aprendermos com ele, não conseguiremos mudar o futuro. Se o governo não pune os torturadores, eles repetem a mesma história nos assentamentos, no assassinato de indígenas... A história, manchada de sangue, continua escondida debaixo do tapete e cabe a nós fazê-la ecoar!”.

A gente vai contra a corrente, Até não poder resistir

   Ao contrário de diversos países, como Argentina Uruguai e Paraguai, onde vários militares acusados de assassinatos e torturas cumprem penas, o Brasil nunca puniu um torturador, o que o faz configurar entre o país mais atrasado em punir repressores da ditadura na América Latina. Por isso, para Marco Apolo (SDDH), é preciso que o movimento siga com dois horizontes de luta: criminalização dos movimentos sociais e punição dos torturadores. “Como já foi dito, hoje em dia a repressão não se dá só com jagunço. É por meio do aparato do estado que ela se faz mais presente, por exemplo, na multa ao sindicato quando faz greve por melhores condições de trabalho... por isso é preciso que avancemos na luta contra a criminalização dos movimentos sociais. E para que não resgatemos essa história com notas e números frios, é preciso exigirmos a punição dos torturadores, porque ‘Comissão da Verdade’ sem punição é uma balela!”.
   Ao final da atividade, um vídeo foi passado com a declaração de Conceição Menezes, a Concha, também enquadrada da LSN e hoje, militante do PSTU que mora na Espanha. Concha saudou a iniciativa do ato que, para ela, ajuda na reconstrução da memória histórica da luta contra a ditadura no Brasil, dos jovens que dedicaram o melhor de suas vidas a esta luta e das organizações, como a CS, que estiveram nesta batalha.
 
*Além de Vinicius Teles , Bernadete Menezes e Fernando Carneiro, presentes na atividade, também foram enquadrados na  Lei de Segurança Nacional os militantes João Batista (Babá), Francisco Cavalcante, Carlos Vinicius Teles, Luziu Horácio, Maristela dos Santos e Conceição Menezes (Concha). Todos indiciados no artigo 36 e 42, ameaçados de pegar de 8 a 30 de prisão.